Janeiro de 2026. Faltando poucas semanas para o Carnaval, Franca volta a viver um cenário já conhecido nos últimos anos: a ausência de mais uma grande festa popular e a confirmação de que, novamente, não haverá desfile das escolas de samba na cidade. Enquanto municípios menores da região, como Batatais e Cássia, já confirmaram programação carnavalesca para este ano, Franca permanece fora do circuito da maior manifestação cultural popular do país.
A tradicional Passarela do Samba “Renato Rosa” seguirá em silêncio. Não haverá o som da cuíca, do repique, do tamborim, do surdo e do agogô. Os barracões não foram abertos para ensaios, fantasias não foram confeccionadas, e mestre-sala, porta-bandeira, rainha de bateria e Rei Momo não ocuparão seus lugares simbólicos na festa.
Para especialistas e integrantes da cultura carnavalesca, a ausência do Carnaval em Franca ultrapassa a falta de um evento pontual e evidencia falhas no planejamento cultural do município.
“O Carnaval francano, que já foi referência no interior de São Paulo, foi o único evento cultural a ficar fora das comemorações dos 200 anos da cidade. Isso demonstra desconhecimento e descaso da administração em geral, tanto do Executivo quanto do Legislativo, não apenas com a tradição dos desfiles, mas também com as comunidades envolvidas, com o acesso à música, aos ensaios, ao lazer, aos barracões e aos empregos que são gerados.
Sem a valorização do Carnaval e da cultura popular e periférica, quem perde é a cidade e toda a população.”
A avaliação é de Jorge Suzuk, advogado, mestre em Planejamento e Análise de Políticas Públicas, professor de percussão e diretor de bateria. Ele já atuou em escolas de samba como a Pérola Negra, de São Paulo, e a Pique Brasileiro Leões da Zona Norte, de Franca. Jorge também é realizador do documentário “Quando Eu Não Puder Mais Pisar na Avenida: Passado e Presente do Carnaval Francano” e autor do livro de mesmo título.
Além do impacto cultural, a ausência do Carnaval afeta diretamente a economia local. O período de desfiles historicamente movimentava setores como costureiras, músicos, seguranças, montadores de arquibancadas, vendedores ambulantes, bares, restaurantes e o comércio em geral. Sem o evento, esses trabalhadores perdem uma importante fonte de renda temporária.
O afastamento prolongado do poder público compromete o futuro das agremiações. As escolas de samba, que tradicionalmente mantêm atividades ao longo de todo o ano, enfrentam dificuldades para se manter ativas sem a principal vitrine cultural da cidade. Mesmo com apresentações pontuais em outras cidades e eventos privados, o enfraquecimento do Carnaval local é visível.
O sentimento predominante entre os sambistas é de frustração e abandono. Ao longo de sua história, Franca já contou com mais de 20 escolas de samba e inúmeros blocos carnavalescos. No último desfile oficial, realizado em 2020, seis agremiações participaram da festa. Desde então, o evento não voltou a ser realizado. Em 2026, com o Carnaval novamente ausente, cresce a preocupação de que essa tradição esteja sendo, aos poucos, apagada da história cultural do município.
Enquanto cidades vizinhas retomam ou mantêm seus carnavais, Franca segue sem investimento, reforçando um contraste regional e levantando questionamentos sobre as prioridades culturais da cidade.
Imagem: Mestre-sala e porta-bandeira da escola Embaixadores da Estação no Carnaval 2020 de Franca, SP — Foto: Prefeitura de Franca/Divulgação





